Segundo volume da trilogia escrita pelo pesquisador Gleison Vieira reúne pesquisa sobre a história dos Carijó antes da colonização
No próximo dia 3 de fevereiro, o pesquisador e escritor Gleison Vieira lança o segundo volume do livro Os Carijó Vozes da Terra. Segundo o autor, a obra lança luz sobre os Carijó, nação guaranítica falante do tupi que habitava soberanamente as praias do Sul do país muito antes da chegada dos europeus.
“Enquanto o litoral nordestino entrava nos registros da colonização em 1500, o Sul já pulsava sob os passos desse povo ‘filho do mar e da floresta’, descrito pelos jesuítas como ‘o gentio mais amável da Terra’”, destaca.
No livro, Vieira reconstrói a trajetória dos Carijó desde suas origens amazônicas até a costa meridional, articulando a etnologia do século XIX com crônicas do século XVI. Mais do que um estudo histórico, a obra se assume como um gesto político e sensível. “Eles foram impedidos de escrever a própria memória. Sua história chegou até nós pela voz de quem os dominou”, afirma Vieira.
Ao revisitar essas fontes, o livro subverte a narrativa colonial e constrói, com delicadeza e dor, uma história dos vencidos, marcada pelo luto de cerca de setenta mil indígenas escravizados pelos bandeirantes paulistas.
Segundo Gleison Vieira, o “coração” da obra está justamente no enfrentamento desse silêncio imposto. “O silêncio dos Carijó não é vazio. Ele é um lamento profundo que ainda ecoa e pede escuta”, diz. Ao romper com o mito da colonização pacífica e do “bom selvagem”, o texto revela como a ternura atribuída a esse povo foi instrumentalizada como armadilha para a violência e a escravidão, expondo a face brutal da Conquista da América.
O processo de pesquisa, que levou anos, foi marcado por desafios profundos. “Pesquisar os Carijó foi um ato de amor e escavação”, relata Vieira. Encontrar fontes após cinco séculos exigiu ler “contra a corrente”, atravessando documentos coloniais que filtravam e distorciam as vozes indígenas. “Foi preciso rasgar a membrana colonial da historiografia para que, entre os estilhaços da palavra do opressor, a dignidade indígena voltasse a brilhar”, afirma o autor, destacando que esta é a primeira obra da historiografia brasileira dedicada exclusivamente aos Carijó em um único compêndio.
Ao final da leitura, o autor espera provocar deslocamento e responsabilidade. “Quero que o conforto da história oficial se desfaça”, afirma. Para ele, o livro não busca apenas informar, mas transformar o olhar do leitor: que, ao caminhar pelas praias do Sul, não se veja apenas a paisagem, mas o rastro de um povo soberano.
“Que o luto se converta em responsabilidade histórica”, conclui Gleison Vieira, reafirmando que o Brasil anterior a 1500 ainda respira e que a terra, finalmente, volta a falar por seus filhos.
A obra pode ser adquirida diretamente com o autor por meio das redes sociais: @gleison5930





















