Selecionada por projeto de apadrinhamento, estudante da rede pública descobre no Magistério o caminho para a licenciatura
Até o 9º ano, Eduarda do Amaral Nizer (16) nunca havia cogitado ser professora. Gostava de ler, passava horas na biblioteca da escola pública onde estudou a vida inteira e admirava os educadores que marcaram sua trajetória, mas não se imaginava ocupando aquele lugar na sala de aula. A mudança começou em um dia comum, durante uma apresentação sobre um projeto de apadrinhamento que oferecia bolsas integrais para estudantes da rede pública cursarem o Ensino Médio com formação técnica em magistério.
Para entrar no magistério, Eduarda precisou realizar uma prova, mas tinha dúvidas se conseguiria passar. “Nunca tinha estudado em escola particular, nunca tinha pensado em magistério. Achei que não ia passar. Fiz o teste nervosa, mas como era produção textual, isso me deixou um pouco mais tranquila.” Quando o resultado chegou, a surpresa foi acompanhada de um sentimento que ela define como decisivo. “Foi como uma luz no fim do túnel. Eu já queria um ensino médio que me desafiasse mais, mas não imaginava que teria essa oportunidade.”
Transição exigiu maiores sacrifícios da estudante
A mudança de realidade foi imediata. Acostumada a uma rotina menos exigente na escola pública, Eduarda sentiu o impacto nos primeiros meses no ensino particular. A carga de estudos era maior, os estágios exigiam responsabilidade e a adaptação social também trouxe desafios.
“Foi um baque na primeira série. Eu precisei me dedicar muito mais, aprender a organizar meu tempo e a confiar na minha capacidade. Mas eu me senti acolhida. Saber que tinha uma rede acreditando em mim, mudou minha postura. Eu não queria desperdiçar aquela chance.”
O curso técnico em magistério inclui prática constante em sala de aula e foi nesse ambiente que a vocação começou a ganhar forma.
Estágio despertou a vocação de professora
Durante o primeiro estágio na Escola Atuação, Eduarda acompanhou uma turma de alfabetização e observou de perto o processo de aprendizagem de um aluno que ainda não sabia ler. Meses depois, retornou à mesma sala e viveu o momento que definiu seu futuro.
“Ele sentou do meu lado e começou a ler o primeiro livro comigo. Eu fiquei em choque. Foi ali que eu percebi como um professor preparado, que realmente ama o que faz, pode mudar a vida de uma criança sem nem perceber. Eu entrei no magistério querendo melhorar minha comunicação, mas saí com o desejo de ensinar.”
A experiência também transformou sua visão sobre o papel do educador. “Eu quero ser uma professora acolhedora, que escute cada criança com zelo. Uma turma não é feita só de números ou resultados. São histórias diferentes, realidades diferentes. A educação é a obra do coração.”
Atualmente, no último ano do Ensino Médio técnico, ela já projeta o próximo passo: cursar Letras e seguir na licenciatura. A escolha dialoga com a paixão antiga pelos livros e com a vocação que nasceu na prática pedagógica. “Eu nunca tinha pensado em ser professora. Hoje eu não consigo me imaginar fazendo outra coisa.”
Projeto aposta na formação de professores desde o Ensino Médio
A trajetória de Eduarda integra o projeto de apadrinhamento do magistério desenvolvido pelo Instituto Destino Brasil em parceria com o Colégio Sagrado Coração. A iniciativa seleciona estudantes do 9º ano da rede pública e, por meio do apadrinhamento de pessoas, empresas e instituições parceiras, garante bolsa integral, tornando gratuita para a estudante a formação no Ensino Médio com curso técnico em magistério em uma instituição particular.
Ao longo de três anos, as alunas recebem acompanhamento pedagógico, realizam estágios supervisionados e são incentivadas a dar continuidade à formação em cursos de licenciatura. Atualmente, 22 estudantes são apadrinhadas por empresas e instituições que financiam integralmente essa formação.
A proposta é investir na base da formação docente como estratégia de longo prazo para enfrentar o déficit de professores na educação básica. Além da etapa técnica, o projeto mantém parcerias que ampliam o acesso à universidade e estimulam a continuidade dos estudos.
Para o presidente do Instituto, Ademar Batista Pereira, o impacto vai além da trajetória individual. “Quando apadrinhamos uma estudante, não estamos investindo apenas em uma bolsa. Estamos investindo em todas as crianças que ela vai ensinar ao longo da vida. A formação de professores precisa começar cedo, com acompanhamento, estrutura e oportunidade real. A história da Eduarda mostra que, quando damos condições, o talento floresce.”
Para Eduarda, a oportunidade redefiniu horizontes que antes pareciam distantes. “Vindo da realidade que eu venho, muitas vezes a gente acha que certas portas não são para nós. O magistério me mostrou que é preciso acreditar e abraçar as oportunidades quando elas aparecem. Essa chance mudou minha vida e eu quero fazer o mesmo por outras pessoas.”
Ao concluir o magistério, Eduarda não leva apenas um diploma, mas a certeza de querer estar em sala de aula e a convicção de que a educação pode transformar trajetórias, inclusive a própria.




















