{"id":4742,"date":"2025-08-04T16:41:45","date_gmt":"2025-08-04T19:41:45","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioparanaense.com\/?p=4742"},"modified":"2025-08-04T16:41:46","modified_gmt":"2025-08-04T19:41:46","slug":"a-sabedoria-dos-recomecos-sob-o-sol-da-maturidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioparanaense.com\/?p=4742","title":{"rendered":"A sabedoria dos recome\u00e7os sob o sol da maturidade"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Quinto disco de Pedro Mann, \u2018Entre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u2019 tra\u00e7a em nove can\u00e7\u00f5es<\/strong> <strong>uma travessia serena e luminosa, celebrando passado, presente e futuro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>ou\u00e7a aqui \u2018Entre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u2019:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/labidad.lnk.to\/entreoceueopenochao\">https:\/\/labidad.lnk.to\/entreoceueopenochao<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Leonardo Lichote<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cL\u00e1 vou eu de novo\u201d \u2014 o verso vem embalado por Pedro Mann num sorriso que n\u00e3o se v\u00ea mas que se intui no canto. Est\u00e1 ali, portanto, em seus primeiros segundos, j\u00e1 na abertura, a alma do novo \u00e1lbum do compositor, \u201cEntre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u201d. Uma alma solar e serena \u2014 em tons quentes por\u00e9m claros, sem satura\u00e7\u00e3o. Se um disco \u00e9 o retrato de um momento do artista, este se revela j\u00e1 na foto da capa: o rosto de perfil, a express\u00e3o tranquila iluminada pela luz do sol matinal.<\/p>\n\n\n\n<p>O quinto disco da trajet\u00f3ria do compositor, cantor e baixista \u00e9, em suas palavras, um gesto de maturidade. \u201cChegou um momento, h\u00e1 uns dois anos, em que eu falei: \u2018Acho que j\u00e1 tenho a\u00ed uma cesta de can\u00e7\u00f5es que pode virar um disco\u2019. E cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que era um disco que representa uma maturidade\u201d. Essa constata\u00e7\u00e3o aponta n\u00e3o para um fim, mas sim um rein\u00edcio. \u201cL\u00e1 vou eu de novo\u201d, a can\u00e7\u00e3o que abre o \u00e1lbum \u2014 e que lhe d\u00e1 o tom \u2014 carrega esse sentido: recome\u00e7ar com lucidez, seguir em frente sem ilus\u00f5es nem amargura. \u201cEu t\u00f4 um pouco assim, sem muitas ilus\u00f5es. Mais p\u00e9 no ch\u00e3o\u201d, diz Mann.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEntre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u201d \u00e9 o primeiro disco em que Mann cuidou de todas as etapas do processo: do financiamento \u00e0 masteriza\u00e7\u00e3o. \u00c9 tamb\u00e9m o mais colaborativo \u2014 s\u00e3o mais de 25 m\u00fasicos convidados, incluindo cordas e sopros. Todas as can\u00e7\u00f5es s\u00e3o suas, s\u00f3 ou com os parceiros Gabriel Pond\u00e9, Beto Landau, Andr\u00e9 Gardel e Marcos Carvalheiro. O \u00e1lbum soa coeso em meio a essa variedade de olhares, orbitando em torno da beleza e do equil\u00edbrio \u2014 estados aos quais o disco aspira. \u201cTem um lugar de vulnerabilidade, de colar com os meus e celebrar com os meus\u201d, sintetiza Mann.<\/p>\n\n\n\n<p>Se h\u00e1 um verso que carrega esse esp\u00edrito, talvez seja o que pulsa no n\u00facleo de \u201cO sol continua a brilhar\u201d: \u201cA tristeza e a alegria navegam na mesma ba\u00eda\u201d. N\u00e3o \u00e9 apenas um achado po\u00e9tico \u2014 \u00e9 o norte espiritual da travessia. \u201cTenho estudado muito medita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o-dualidade\u201d, conta Mann. \u201cQuero escrever m\u00fasicas assim. Gosto quando ou\u00e7o uma m\u00fasica que me fala isso: \u2018Fica relax a\u00ed, brother, t\u00e1 tudo certo. Amanh\u00e3 o sol nasce de novo\u2019\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse movimento de aceita\u00e7\u00e3o do que vem, as can\u00e7\u00f5es se agrupam sem uma tese r\u00edgida, mas com uma ideia n\u00edtida em sua maleabilidade. \u201cN\u00e3o \u00e9 que eu t\u00f4 dividido. O disco n\u00e3o \u00e9 de algu\u00e9m dividido. O disco \u00e9 \u00edntegro. Sou eu e Deus. T\u00f4 aqui entre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o. Eu e minhas armas\u201d. A integridade vem do mergulho em cada momento. \u201cO amor nasceu mulher\u201d, por exemplo, foi composta com Pond\u00e9 no dia em que Mann soube que sua m\u00e3e teria que operar de um c\u00e2ncer e que a filha de um amigo tinha acabado de nascer. \u201cFoi um dia muito marcante. \u00c9 uma can\u00e7\u00e3o que celebra isso, a ancestralidade, todas as mulheres que fazem o mundo. \u00c9 muito forte, a melhor do disco pra mim\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A can\u00e7\u00e3o que batiza o \u00e1lbum tamb\u00e9m estava pronta h\u00e1 anos, mas voltou ao centro quando Renan Salotto \u2014 diretor criativo da Amarelo Verve, com a qual Mann trabalha h\u00e1 anos \u2014 deu a ideia do t\u00edtulo. \u201cFalei: \u2018T\u00e1 de sacanagem\u2019. J\u00e1 tinha uma can\u00e7\u00e3o com esse t\u00edtulo\u201d, conta o compositor. A m\u00fasica, ent\u00e3o, teve que ser puxada para o repert\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00e1lbum traz seis in\u00e9ditas e tr\u00eas can\u00e7\u00f5es previamente lan\u00e7adas. Mann abre o \u00e1lbum com tr\u00eas da nova safra, escritas de 2022 pra c\u00e1: \u201cL\u00e1 vou eu de novo\u201d, \u201cAi ai te procurava\u201d, \u201cFica essa can\u00e7\u00e3o\u201d. As tr\u00eas faixas previamente lan\u00e7adas \u2014 \u201cO amor nasceu mulher\u201d, \u201cO sol continua a brilhar\u201d e \u201cPonte a\u00e9rea\u201d \u2014 se articulam com \u201cEntre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u201d, \u201cGostando de algu\u00e9m\u201d e \u201cBatucando\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A ordem das can\u00e7\u00f5es desenha a narrativa do \u00e1lbum. Assim, \u201cL\u00e1 vou eu de novo\u201d apresenta de sa\u00edda a filosofia do presente: \u201cO agora \u00e9 tudo que a gente tem\u201d. Em seguida, \u201cAi ai te procurava\u201d traz o clima mais dan\u00e7ante do disco \u2014 um xote \u201cmeio psicod\u00e9lico\u201d, com sabor de reggae, gravado por Mann com Aline Paes. \u201cQuando parei de procurar foi quando eu vi\u201d, canta ele, como quem narra o pr\u00f3prio processo de perceber que a melhor pessoa para gravar a m\u00fasica com ele era Aline, amiga com quem j\u00e1 tocou tantas vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Com melodia e arranjo que ecoam Roberto &amp; Erasmo, \u201cFica essa can\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 o gesto de agradecimento \u2014 \u00e0 hist\u00f3ria, ao outro, ao amor vivido. \u201cSaudade vai falar por mim\/ Quero bem a quem me fez feliz\u201d. E, com serenidade madura, entrega: \u201cC\u00ea vai sentir vontade na sua liberdade?\/ Eu sei, tamb\u00e9m vou sentir\u201d. J\u00e1 em \u201cO amor nasceu mulher\u201d, a gratid\u00e3o ganha dimens\u00e3o c\u00f3smica \u2014 n\u00e3o a uma mulher, mas a todas.<\/p>\n\n\n\n<p>A sequ\u00eancia avan\u00e7a com \u201cEntre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u201d, gravada por Mann na companhia do amigo Ricardo Rito, em casa, como pren\u00fancio de um desejo futuro: \u201cQuero talvez fazer um pr\u00f3ximo disco inteiro assim, com a limita\u00e7\u00e3o como pretexto pra explorar a criatividade\u201d. Depois, \u201cO sol continua a brilhar\u201d reverbera a abertura do disco, no dueto do cantor com Luiza Bo\u00ea: \u201cO sol levanta e voc\u00ea canta\/ A beleza do mundo exalta \/ E se alguma coisa falta \/ Banho de mar pra curar.\u201d \u00c9 talvez a faixa que melhor representa a presen\u00e7a de Mann como cantor: \u201cRecebo muito esse feedback: \u2018Tua voz traz tranquilidade.\u2019 Ningu\u00e9m fala \u2018que vozeir\u00e3o\u2019, mas falam dessa paz. E essa m\u00fasica \u00e9 isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGostando de algu\u00e9m\u201d, \u00fanica faixa s\u00f3 dele no disco, nasce de um momento \u00edntimo. No in\u00edcio do namoro, ele pegou o viol\u00e3o logo depois que a namorada saiu de sua casa e come\u00e7ou a tocar sem saber muito bem o que viria. Viu uma gaivota passar no c\u00e9u e cantarolou, num exerc\u00edcio espont\u00e2neo de metalinguagem: \u201cGaivotas voando sem preocupa\u00e7\u00e3o\/ Est\u00e1 nascendo uma nova can\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPonte a\u00e9rea\u201d retoma o tom amoroso, com letra delicada: \u201cSe a gente n\u00e3o pode ficar\/ Bem juntinho, agarradinho\/ Ai, que saudade louca\/ Num beijinho coladinho\/ Na sua boca\u201d. Mann admite ter implicado com os diminutivos no in\u00edcio, mas se rendeu: \u201cO Brasil \u00e9 isso, como Vin\u00edcius de Moraes nos ensinou\u201d. A faixa tem vocais de J\u00falia Vargas, que se junta a Aline e Luiza no time de cantoras que dialogam com Mann no \u00e1lbum. \u201cAs vozes femininas combinam muito com minhas can\u00e7\u00f5es, que t\u00eam uma do\u00e7ura do meu jeito de compor\u201d, reflete o compositor.<\/p>\n\n\n\n<p>O fecho vem com \u201cBatucando\u201d, mais lenta, com arranjo de cordas e atmosfera cinematogr\u00e1fica. Um samba de saudade do carnaval e do amor: \u201cEstamos s\u00f3s\/ E o som de purpurina da tua voz\/ Ficou batucando\/ Batucando aqui dentro de mim\u201d. Mann v\u00ea ali o disco terminando como um filme. \u201cEla n\u00e3o \u00e9 triste. Tem uma nostalgia, me lembra Fellini. Ou essa coisa de terminar em fade out, meio \u201cDona Flor e seus dois maridos\u201d, ela indo embora com eles. E tem esse carnaval que n\u00e3o \u00e9 o da Ivete na Bahia, fritado. \u00c9 um carnaval antiguinho, rom\u00e2ntico, melanc\u00f3lico\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A instrumenta\u00e7\u00e3o do disco \u00e9 plural, mas nunca dispersa. Foram quatro guitarristas diferentes, tr\u00eas bateristas, cordas, sopros, p\u00edfanos. O baixo se divide entre Mann e Alberto Continentino \u2014 que assina a produ\u00e7\u00e3o de parte do disco, ao lado de Yuri Vilar. Se Yuri \u00e9 o parceiro de longa data (\u201cda minha bolha\u201d, como define Mann), Alberto ampliou o horizonte: \u201cTrouxe outra turma. Gente a que eu n\u00e3o teria acesso normalmente\u201d. O piano el\u00e9trico, o clima setentista, as camadas de arranjo com Jorge Continentino, Filipe Pacheco e Diogo Gomes d\u00e3o densidade sem pesar. \u201cA gente fez um xote meio maluco\u201d, exemplifica Mann citando \u201cAi ai te procurava\u201d. \u201cNa mix, o Alberto botou delays, fez um tro\u00e7o entre o xote e o dub. Um gola\u00e7o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O disco avan\u00e7a, portanto, com leveza, mas sem superficialidade. Afirma o presente, honra o passado, deseja o futuro \u2014 e faz isso com generosidade. \u201cProduzir disco \u00e9 uma desculpa pra estar junto de pessoas queridas\u201d, diz Mann. \u201cEntre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u201d talvez seja isso: um gesto de comunh\u00e3o, feito de encontros, de aceita\u00e7\u00e3o, de gratid\u00e3o, de beleza, de leveza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quinto disco de Pedro Mann, \u2018Entre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u2019 tra\u00e7a em nove can\u00e7\u00f5es uma travessia serena e luminosa, celebrando passado, presente e futuro ou\u00e7a aqui \u2018Entre o c\u00e9u e o p\u00e9 no ch\u00e3o\u2019: https:\/\/labidad.lnk.to\/entreoceueopenochao Leonardo Lichote \u201cL\u00e1 vou eu de novo\u201d \u2014 o verso vem embalado por Pedro Mann num sorriso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":4743,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[27],"tags":[],"class_list":["post-4742","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4742","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4742"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4742\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4744,"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4742\/revisions\/4744"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4743"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4742"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4742"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/diarioparanaense.com\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4742"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}