{"id":4680,"date":"2025-07-23T09:59:09","date_gmt":"2025-07-23T12:59:09","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioparanaense.com\/?p=4680"},"modified":"2025-07-23T09:59:10","modified_gmt":"2025-07-23T12:59:10","slug":"residuo-zero-nao-e-utopia-mas-um-modelo-viavel-para-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioparanaense.com\/?p=4680","title":{"rendered":"Res\u00edduo zero n\u00e3o \u00e9 utopia, mas um modelo vi\u00e1vel para o Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\"><strong>Por Fernando Beltrame, CEO da Eccaplan e especialista em Net Zero<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, o Brasil conviveu com uma gest\u00e3o de res\u00edduos pautada na l\u00f3gica da coleta e descarte, frequentemente associada a aterros sanit\u00e1rios, lix\u00f5es e solu\u00e7\u00f5es paliativas. Ainda hoje, mais de tr\u00eas mil munic\u00edpios brasileiros destinam seus res\u00edduos de maneira inadequada, muitos deles em \u00e1reas sem qualquer controle ambiental. Frente a esse cen\u00e1rio, o conceito de \u201cres\u00edduo zero\u201d pode, \u00e0 primeira vista, parecer inalcan\u00e7\u00e1vel. No entanto, mais do que uma meta absoluta, trata-se de uma abordagem sist\u00eamica que pode, e deve, guiar o pa\u00eds na constru\u00e7\u00e3o de um novo modelo de desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de res\u00edduo zero n\u00e3o se limita \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o total dos res\u00edduos, algo que, no curto prazo, \u00e9 praticamente invi\u00e1vel mesmo nas economias mais avan\u00e7adas. Ele prop\u00f5e a mudan\u00e7a estrutural nos modos de produ\u00e7\u00e3o e consumo, priorizando a redu\u00e7\u00e3o na origem, o redesenho de produtos, a reutiliza\u00e7\u00e3o, a compostagem e a reciclagem de materiais. Apenas os rejeitos finais, que n\u00e3o possuem viabilidade t\u00e9cnica ou econ\u00f4mica para reaproveitamento, devem ser encaminhados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o adequada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao observarmos os dados brasileiros, a urg\u00eancia dessa transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente. Em 2022, o pa\u00eds gerou aproximadamente 81,8 milh\u00f5es de toneladas de res\u00edduos s\u00f3lidos urbanos, com uma taxa de coleta de 93%. Contudo, menos de 4% desse total foi efetivamente reciclado. O \u00edndice de reciclagem de pl\u00e1sticos, por exemplo, gira em torno de 1,2%, o que nos coloca entre os pa\u00edses com pior desempenho nesse aspecto. Enquanto isso, materiais como o alum\u00ednio alcan\u00e7am taxas superiores a 98% de reaproveitamento, demonstrando que, quando h\u00e1 viabilidade econ\u00f4mica e estrutura adequada, resultados expressivos s\u00e3o poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses n\u00fameros revelam n\u00e3o apenas a defici\u00eancia na coleta seletiva e na reciclagem, mas, principalmente, a inefici\u00eancia do atual modelo baseado na extra\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o, consumo e descarte. O custo desse sistema ultrapassa o aspecto ambiental: a degrada\u00e7\u00e3o de ecossistemas, a emiss\u00e3o de gases de efeito estufa, a perda de recursos e a sobrecarga nos sistemas p\u00fablicos de limpeza urbana geram um ciclo de preju\u00edzos econ\u00f4micos e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que as solu\u00e7\u00f5es est\u00e3o ao alcance. O Brasil possui instrumentos legais e diretrizes claras, como a Pol\u00edtica Nacional de Res\u00edduos S\u00f3lidos (PNRS), que estabelece a responsabilidade compartilhada entre consumidores, empresas e governos, e define a hierarquia de gest\u00e3o de res\u00edduos, priorizando n\u00e3o gera\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o, reutiliza\u00e7\u00e3o, reciclagem e, apenas em \u00faltimo caso, a disposi\u00e7\u00e3o final. No entanto, a aplica\u00e7\u00e3o da lei \u00e9 desigual, e muitos munic\u00edpios ainda carecem de estrutura, recursos e capacita\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica para cumprir essas diretrizes. Nesse contexto, o conceito de res\u00edduo zero surge como um norte para pol\u00edticas p\u00fablicas, estrat\u00e9gias corporativas e iniciativas comunit\u00e1rias. Sua aplica\u00e7\u00e3o passa necessariamente por tr\u00eas pilares interdependentes: inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, educa\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o socioecon\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>No campo tecnol\u00f3gico, \u00e9 fundamental investir em solu\u00e7\u00f5es para o reaproveitamento de res\u00edduos org\u00e2nicos, que representam cerca de 50% do total gerado nos domic\u00edlios brasileiros. Sistemas de compostagem, biodigestores e outras tecnologias de valoriza\u00e7\u00e3o org\u00e2nica podem reduzir drasticamente o volume de res\u00edduos destinados a aterros e ainda gerar subprodutos, como adubo e biog\u00e1s. Paralelamente, \u00e9 preciso ampliar o alcance da coleta seletiva, com investimentos em infraestrutura de triagem e log\u00edstica reversa, especialmente para res\u00edduos como vidro, papel e pl\u00e1sticos complexos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 importante ressaltar que o modelo de res\u00edduo zero n\u00e3o depende apenas de a\u00e7\u00f5es isoladas. Ele requer uma reestrutura\u00e7\u00e3o das cadeias produtivas, com a ado\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios de economia circular. Nesse sentido, o envolvimento do setor produtivo \u00e9 determinante. Empresas de diversos setores, como alimentos, embalagens e constru\u00e7\u00e3o civil, t\u00eam papel estrat\u00e9gico no desenvolvimento de novos materiais, no redesenho de embalagens e na cria\u00e7\u00e3o de produtos com maior durabilidade e reaproveitamento.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil disp\u00f5e de potencial \u00fanico para se destacar nesse contexto. A diversidade biol\u00f3gica e os vastos recursos naturais oferecem condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para a implementa\u00e7\u00e3o de modelos circulares e sistemas de reaproveitamento org\u00e2nico. Al\u00e9m disso, o pa\u00eds j\u00e1 possui marcos regulat\u00f3rios e iniciativas locais promissoras, que podem servir de base para uma expans\u00e3o nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Res\u00edduo zero n\u00e3o \u00e9 um conceito te\u00f3rico distante, tampouco um privil\u00e9gio restrito a pa\u00edses desenvolvidos. Trata-se de uma resposta necess\u00e1ria e vi\u00e1vel aos desafios ambientais e sociais do presente. Com integra\u00e7\u00e3o entre tecnologia, inclus\u00e3o social e pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes, o Brasil tem todas as condi\u00e7\u00f5es de liderar uma transforma\u00e7\u00e3o profunda na forma como produz, consome e descarta.<\/p>\n\n\n\n<p>Encarar o res\u00edduo zero como utopia \u00e9, na verdade, um sinal de resist\u00eancia a mudan\u00e7as que j\u00e1 est\u00e3o em curso globalmente. A verdadeira utopia seria acreditar que o modelo atual, marcado pelo desperd\u00edcio e pela exclus\u00e3o, pode sustentar o desenvolvimento por muito mais tempo. A transi\u00e7\u00e3o \u00e9 inevit\u00e1vel. E quanto antes iniciarmos esse percurso, maiores ser\u00e3o os benef\u00edcios ambientais, econ\u00f4micos e sociais para o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Fernando Beltrame \u00e9 mestre pela USP, engenheiro pela Unicamp e CEO da Eccaplan. Com mais de 20 anos de experi\u00eancia em projetos de consultoria, sustentabilidade e estrat\u00e9gia Net Zero, j\u00e1 atuou em diferentes eventos e iniciativas como a COP18, Rio+20 e f\u00f3runs mundiais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Fernando Beltrame, CEO da Eccaplan e especialista em Net Zero Durante d\u00e9cadas, o Brasil conviveu com uma gest\u00e3o de res\u00edduos pautada na l\u00f3gica da coleta e descarte, frequentemente associada a aterros sanit\u00e1rios, lix\u00f5es e solu\u00e7\u00f5es paliativas. 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