{"id":2322,"date":"2024-03-11T14:30:05","date_gmt":"2024-03-11T17:30:05","guid":{"rendered":"https:\/\/diarioparanaense.com\/?p=2322"},"modified":"2024-03-11T14:30:05","modified_gmt":"2024-03-11T17:30:05","slug":"excesso-de-telas-o-inimigo-no-1-das-escolas-um-alerta-as-familias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/diarioparanaense.com\/?p=2322","title":{"rendered":"Excesso de telas: o inimigo n\u00ba 1 das escolas!      Um alerta \u00e0s fam\u00edlias."},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-medium-font-size\">Haroldo Andriguetto Junior<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 tempo de recome\u00e7o escolar! E a cena \u00e9 quase universal: de um lado, fam\u00edlias preparam a lista de materiais, atualizam-se com as primeiras reuni\u00f5es na escola e completam aquele ritual de volta \u00e0s aulas dos filhos. De outro, as escolas encerram suas reformas de infraestrutura, capacitam seu corpo docente, alinham as informa\u00e7\u00f5es e, ent\u00e3o, preparam-se para a abertura de mais um ano letivo.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 desafios j\u00e1 conhecidos e recorrentes do ensino, como a aprendizagem ativa, as novas tecnologias, a inclus\u00e3o, o novo Ensino M\u00e9dio e tantos outros. Mas este ano, especialmente, h\u00e1 um inimigo maior \u00e0 vista: o excesso de telas. Sem d\u00favida, a miss\u00e3o da escola, que, entre tantas outras, est\u00e1 em formar seres humanos e desenvolver a dimens\u00e3o social, motora, ps\u00edquica e emocional, sendo o maior laborat\u00f3rio de vida aos estudantes, est\u00e1 em risco. A t\u00e3o nobre \u201cprepara\u00e7\u00e3o para a vida em sociedade\u201d est\u00e1 mais dif\u00edcil de acontecer se as escolas continuarem a receber crian\u00e7as com alto e prematuro consumo de telas. Infelizmente, fam\u00edlias t\u00eam fechado os olhos para crian\u00e7as em tempo exagerado em frente a dispositivos, como tablets, computadores, smartphones, TVs e jogos.<\/p>\n\n\n\n<p>O senso comum tem replicado uma narrativa sobre este assunto: \u201cporque j\u00e1 nasceram neste ambiente, as crian\u00e7as, os filhos, fazem parte de uma gera\u00e7\u00e3o de nativos digitais, fluentes no manejo e na compreens\u00e3o de ferramentas tecnol\u00f3gicas, e a escola deve, portanto, rapidamente, adaptar-se a essa revolu\u00e7\u00e3o. Afinal, o c\u00e9rebro das crian\u00e7as est\u00e1 mais r\u00e1pido, reativo, aberto \u00e0 multiplicidade simult\u00e2nea de tarefas e, portanto, \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 mesmo? O fato \u00e9 que esses \u201cnativos digitais\u201d, distantes de uma vida off-line e humana, deixam de lado uma parte importante da inf\u00e2ncia, retornando \u00e0 escola sem a mente aberta das f\u00e9rias pela pausa construtiva. Muitos deles, inclusive, encontram-se no modo \u201crobotizado\u201d. Replicam linguagem impr\u00f3pria \u00e0 idade, trejeitos corporais inadequados, brincadeiras, pontos de vista e at\u00e9 vis\u00f5es de mundo incompat\u00edveis para o seu tempo. Em grupo, tendem a ser impacientes, intolerantes ao t\u00e9dio e agitados. Movimentam-se pouco, abalam sua coordena\u00e7\u00e3o motora, sem falar nos dist\u00farbios de fala, peso e linguagem.<\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador franc\u00eas e especialista em neuroci\u00eancia cognitiva, Michel Desmurget, alerta que as crian\u00e7as ocidentais de at\u00e9 2 anos t\u00eam ficado quase 50 minutos por dia em frente \u00e0 tela. Entre 2 e 8 anos, esse tempo aumenta para quase tr\u00eas horas e, at\u00e9 12 anos, o tempo gira em torno de cinco horas por dia. De 13 a 18, o esc\u00e2ndalo \u00e9 maior, perfazendo um montante de quase oito horas. Se considerarmos um ano, contas simples nos levam a mil horas para um aluno de Educa\u00e7\u00e3o Infantil (1,4 m\u00eas de tela), 1.700 horas para um aluno de Ensino Fundamental (2,4 meses) e 2.650 horas (3,7 meses) para um aluno de Ensino M\u00e9dio. Em 18 anos de vida, essa conta equivale (pasmem!) a 30 anos letivos de telas.<\/p>\n\n\n\n<p>Imersas em telas, por \u00f3bvio, a inf\u00e2ncia e a sa\u00fade t\u00eam sido as maiores v\u00edtimas. Para o pesquisador Desmurget, as crian\u00e7as v\u00eam sendo afetadas na dimens\u00e3o som\u00e1tica, com \u00edndices escalon\u00e1veis em obesidade e matura\u00e7\u00e3o cardiovascular; na dimens\u00e3o cognitiva, com efeitos na linguagem e na concentra\u00e7\u00e3o; e, at\u00e9 na dimens\u00e3o emocional, com altos n\u00edveis de ansiedade e agressividade. Isso sem falar em atrasos na fala, na linguagem, em habilidades motoras e socioemocionais, bem como preju\u00edzos no \u00e2mbito da sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Com r\u00e1pido e direto reflexo nas escolas, muitos educadores j\u00e1 t\u00eam constatado o cansa\u00e7o extremo das crian\u00e7as, o aumento do estresse, os problemas comportamentais, os casos de depress\u00e3o, a falta de concentra\u00e7\u00e3o, as mudan\u00e7as r\u00e1pidas de humor, os transtornos de sono, a alimenta\u00e7\u00e3o irregular, os dist\u00farbios de vis\u00e3o e a consequente redu\u00e7\u00e3o do tempo de intera\u00e7\u00e3o social e familiar. E o pior: na \u00e2nsia pela resolu\u00e7\u00e3o e por menosprezarem ou desconhecerem o perigo das telas, muitas fam\u00edlias t\u00eam recorrido \u00e0 medicaliza\u00e7\u00e3o e \u00e0s terapias, chegando, em alguns casos, a conclus\u00f5es m\u00e9dicas equivocadas, quando, de fato, o problema reside no excesso de telas em casa e na falta de presen\u00e7a e conv\u00edvio familiar, com const\u00e2ncia, aten\u00e7\u00e3o e intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer adulto, sem muito esfor\u00e7o, em um passado n\u00e3o distante, poder\u00e1 lembrar quando tais dispositivos, ainda desconectados da internet, geravam um entretenimento \u201cfinito\u201d \u00e0s crian\u00e7as, no sentido de haver ao menos o famoso \u201cgame over\u201d, o fim do jogo, que marcava uma poss\u00edvel pausa e o recome\u00e7o. Hoje, lamentavelmente, os \u201cshort\u201d v\u00eddeos, os \u201cfeeds\u201d de redes sociais ou at\u00e9 mesmo os games s\u00e3o, em sua maioria, infinitos. Em especial, os feeds, dotados de uma intelig\u00eancia algor\u00edtmica capaz de captar seus gostos e prefer\u00eancias, geram ainda mais experi\u00eancias personalizadas e ajustadas aos usu\u00e1rios, quando n\u00e3o comerciais ou pornogr\u00e1ficas, aumentando o tempo de perman\u00eancia, fixando os olhares, \u201csequestrando\u201d toda e qualquer possibilidade de intera\u00e7\u00e3o humana e conv\u00edvio social. Por essa raz\u00e3o que na\u00e7\u00f5es como Inglaterra, Taiwan e China, por exemplo, j\u00e1 regulam o uso de telas, em alguns casos, com multas aos pais pela exposi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as ao uso indiscriminado.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as, assim como os seres humanos, por natureza, nasceram para a viv\u00eancia em sociedade. O isolamento as adoece, basta observar o que vivenciamos durante a pandemia. Se a fam\u00edlia n\u00e3o estabelecer uma Alian\u00e7a com a Escola em prol da forma\u00e7\u00e3o humana dos filhos, todos perder\u00e3o a luta contra esse inimigo vis\u00edvel e devastador. S\u00f3 a parceria, a rela\u00e7\u00e3o de consumo e a presen\u00e7a em reuni\u00f5es \u00e9 insuficiente. Uma alian\u00e7a pressup\u00f5e engajamento real, uni\u00e3o de prop\u00f3sito e entendimento da causa educacional de seu filho com a forma\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias. Este alerta \u00e9 para que n\u00e3o deixemos aumentar os n\u00edveis de fracasso escolar, tampouco deixemos adoecer professores e escolas, enquanto os nativos digitais continuam sendo um mito a servi\u00e7o dos ing\u00eanuos, especialmente na Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica.<\/p>\n\n\n\n<p>Haroldo Andriguetto Junior \u00e9 Doutor em Educa\u00e7\u00e3o, Diretor da Escola O Pequeno Polegar e Vice-Presidente&nbsp;do&nbsp;SINEPE\/PR.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Haroldo Andriguetto Junior \u00c9 tempo de recome\u00e7o escolar! E a cena \u00e9 quase universal: de um lado, fam\u00edlias preparam a lista de materiais, atualizam-se com as primeiras reuni\u00f5es na escola e completam aquele ritual de volta \u00e0s aulas dos filhos. 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